Há algo de estranho na literatura.
Passamos horas acompanhando pessoas que nunca nasceram, em lugares que jamais existiram, enfrentando problemas que provavelmente nunca enfrentaremos. Sabemos que tudo aquilo é inventado. Sabemos que o autor está nos enganando — e, ainda assim, pedimos para que ele continue.
Talvez essa seja uma das coisas mais fascinantes da ficção: nós sabemos que é mentira, mas desejamos acreditar.
Quando abrimos um livro, aceitamos certas regras.
Durante algumas páginas, podemos entrar em uma cidade que não aparece em nenhum mapa. Podemos atravessar uma floresta onde ninguém jamais esteve. Podemos ouvir os pensamentos de um homem morto há séculos ou acompanhar uma mulher que nunca existiu enquanto ela toma uma decisão que mudará sua vida.
E ninguém precisa nos convencer de que aquilo aconteceu.
Basta escrever bem.
Existe uma espécie de pacto silencioso entre escritor e leitor.
O escritor diz:
“Imagine que seja assim.”
E o leitor responde:
“Tudo bem. Por enquanto, eu acredito.”
Talvez seja por isso que os grandes mundos ficcionais sejam tão difíceis de abandonar.
Não deixamos apenas personagens para trás quando terminamos um livro. Deixamos lugares.
Algumas cidades literárias continuam existindo dentro de nós mesmo depois que fechamos o livro. Certas casas parecem ter corredores que conhecemos. Certas ruas nos dão a impressão de que já caminhamos por elas. Há personagens de quem sentimos saudade como se fossem pessoas que realmente fizeram parte da nossa vida.
E talvez, de certa maneira, tenham feito.
A ficção possui uma capacidade curiosa de ocupar espaço na memória.
Podemos esquecer o nome de alguém que encontramos há dez anos, mas lembrar perfeitamente de uma personagem que nunca existiu. Podemos não recordar exatamente o que aconteceu em determinada semana de nossa própria vida, mas saber o que um personagem fez em uma terça-feira imaginária de um mundo inventado.
É uma espécie de contradição maravilhosa.
O que nunca aconteceu pode permanecer conosco por mais tempo do que aquilo que aconteceu.
Talvez porque a realidade seja obrigada a terminar quando termina.
A ficção, não.
Um personagem pode morrer na última página e continuar vivendo na imaginação de milhares de leitores.
Uma cidade pode ser destruída no final de uma história e permanecer intacta na cabeça de quem a imaginou.
Um império pode desaparecer.
Uma civilização pode ser esquecida.
Um planeta pode deixar de existir.
Mas, enquanto alguém se lembrar dele, ele continuará possuindo alguma forma de existência.
É por isso que gosto tanto dos livros que conseguem construir mundos.
Não necessariamente porque sejam grandiosos.
Às vezes, um mundo inteiro pode caber em uma pequena sala.
Um escritor descreve uma janela, uma mesa, uma cadeira, uma rua vista ao longe e, de repente, nosso cérebro faz o restante do trabalho.
A literatura não precisa mostrar tudo.
Talvez essa seja justamente a sua força.
No cinema, alguém decide como é o rosto de determinado personagem, qual é a aparência da casa, a cor do céu e a maneira como uma cidade deve ser vista.
No livro, essas coisas podem permanecer incompletas.
O escritor oferece algumas palavras.
O leitor constrói o resto.
Por isso, dois leitores nunca visitam exatamente o mesmo lugar.
Cada um carrega consigo uma versão diferente daquele mundo.
Talvez seja esse o verdadeiro encanto da ficção.
Ela não nos entrega um mundo pronto.
Ela nos dá os materiais para construí-lo.
E, por algumas centenas de páginas, fazemos algo que a realidade raramente nos permite fazer: vivemos em outro lugar.
Depois fechamos o livro.
A sala continua ali.
A rua continua ali.
O mundo continua exatamente como estava.
Mas alguma coisa mudou.
Não no mundo.
Na nossa cabeça.
E talvez seja por isso que continuamos lendo.
Não porque acreditamos que aquelas histórias aconteceram.
Mas porque, durante algumas horas, gostaríamos que tivessem.